Para Assistir e Ficar Sacundindo: Expresso 2222 - Back In Bahia
Postado Por Marcel Cruz
Antes de começar o texto sobre o álbum quero deixar aqui meus sinceros agradecimentos ao especialíssimo Chico Arruda que ao saber que eu estava a procura deste álbum entrou em contato e teve a bondade de me enviar uma cópia dessa obra que até então estava perdida no tempo. Valeu mesmo Chico, essa postagem dedico a você!
Agora vamos ao disco:
O elo perdido! A lacuna que existia na discografia tropicalista acaba de ser preenchida!!! "Brasil Ano 2000", é a trilha do filme homônimo lançado em 1969. Os responsáveis pela trilha fazem parte da cúpula tropicalista. Gil, Capinam, Duprat e Caetano Veloso assinam as composições contidas no filme.
20 faixas das quais três são de Gil e Capinam, uma de Caetano Veloso e as 16 restantes levam a assinatura de Duprat. O tempo total do LP dura cerca de 32 minutos e carrega momentos memoráveis. De começo temos Gal Costa interpretando a excelente "Canção Da Moça", de Gil e Capinam, na ficha técnica não diz quem é o violonista que a acompanha, mas tenho quase certeza de que é o proprio Gil que o faz. Seguindo temos duas vinhetas de Duprat e outra canção de Gil e Capinam "Homen de Neandertal", interpretada por Gal e Bruno Ferreira. Mais uma vinheta e caimos no tema chamado "Retreta", tema que caberia em qualquer filme de Fellini sem destoar em nada, Duprat compôs um dobrado que deixaria Nino Rota morrendo de inveja (ah! Se Fellini tivesse ouvido isso! rsrs). Na sequência temos mais 5 vinhetas de tamanhos variáveis e que entre as quais Duprat desfolha citações de Felix Mendelssohn e de G. Rossini e são com elas que finaliza o Lado A do LP.
O Lado B abre com "Show de Me Esqueci", uma espécie de síntese do filme interpretada por Gal , Ênio Golçalves e Bruno Ferreira, nela estão praticamente quase todas as melodias que permeam o filme. O que segue é a composição "Coração", aqui Duprat re-utilizou a base do arranjo orquestral de "Coração Materno" gravado um ano antes para o LP "Tropicália ou Panis Et Circenses" e substituiu o vocal de Caetano Veloso por um solo de clarinete fazendo outra melodia, creio, sem dúvida alguma, que Duprat fez uso dos tapes de "Coração Materno" para o seu 'novo' "Coração" como uma espécie de play back, é curioso ouví-las uma seguida da outra.
Mais quatro vinhetas seguem na continuidade do álbum, duas merecem ser comentadas: "Duelo De Garfo e Faca", me arremete aos experimentos de Walter Smetak com suas propositais desafinações e diálogo entre os instrumentos e "Relógio Do Tempo", que devido a instrumentação escolhida é o tema mais singelo do álbum, impossível não gostar. Mais duas e concluímos o repertório do disco: "Escolha Da Liberdade", novamente Duprat revisita os temas que aparecem no filme e cria nova melodia que vai servir de ponte para o último tema do álbum. "Não Identificado", composição de Caetano Veloso que foi escolhida como canção adicional e que encaixou perfeitamente, não poderia ter sido melhor a escolha. Mais uma vez Gal deixa seu recado concluindo o volume de maneira magistral.
"...Vou andando, vou sonhando, vou sorrindo, seu sorriso sonho antigo em minha dor..."
Dois anos depois do primeiro disco solo, Jards chega esbofeteando geral com esse que considero um dos álbuns mais geniais da música brasileira:
"Jards Macalé apresenta a linha de morbeza romântica em Aprender a Nadar"
Lançado em 1974, o álbum contou com arranjos de Macalé, Perinho Albuquerque e Wagner Tiso. Os músicos participantes fazem jus ao resultado, como são muitos citarei apenas alguns: Robertinho Silva (Bateria e Percussão), Dino (Violão 7 Cordas) e Meira (Violão), Canhoto (Cavaquinho), Rubão Sabino (Baixo), Tutti Moreno (Bateria), Carlinhos Pandeiro de Ouro, Zeca da Cuíca e Wally Saillormoon.
O repertório é fabuloso! Com participação de Ana Maria Miranda e Lygia Macalé, a primeira faixa intitulada "Jards Anet Da Vida" é uma especie de auto apresentação que Jards faz sobre um texto de Gilberto Gil misturada com mais três composições chamadas: "Dois Corações" de Herivelton Martins e Waldemar Gomes, "No Meio Do Mato" de Jards e "O Faquir Da Dor" de Jards e Wally. Concepção genial!
Seguindo temos "Rua Real Grandeza", composição de Jards e Wally, a interpretação de Jards não poderia ser melhor, em perfeita sintonia com a melodia e com a letra, coladinha nessa temos "PAM PAM PAM", de Paulo da Portela, faixa que funciona como vinheta no álbum.
"Imagens", composição de Walzinho e Orestes Barbosa (exatamente o mesmo de "Chão De Estrelas"), tem uma letra muito fooooda, o arranjo é de Perinho Albuquerque, rei da elegância e das sutilezas. Ainda temos três faixas para fechar o lado A do disco, são elas: "Anjo Exterminado", um dos melhores sambas da dupla Jards e Wally, "Dona De Castelo", também da dupla e por último "Estatuto de Gafieira", excelente samba de Bily Blanco que discorre sobre o que não deve ser feito na gafieira, genial!
O Lado B do álbum, não poderia começar melhor. "Mambo Da Cantareira", composição de Barbosa da Silva e Eloi de Warthon, é um tema pra lá de dançante, a lamúria de um cidadão que mora em Niterói e viaja na cantareira todos dias pois trabalha em Madureira (quase 40Km de distância, rsrs), provavelmente deve ter sido de onde saiu o nome do álbum. Na sequência temos "E Daí?...", composição do genialíssimo Miguel Gustavo, que Wagner Tiso arranjou de forma magistral acrescentando o tema "Mora Na Filosofia", de Monsueto, como música incidental. Em seguida entra em campo a 'dona boa lá de Cascadura': Oróra, "Oróra Analfabeta", composição hilária de Gordurinha e Nascimento Gomes, fala da tal dona que é um espetáculo 'mas não sabe ler e nem tampouco escrever', rsrsrs, fantárrrdigo!!!!
O volume segue com mais duas composições, o bolero "Senhor Dos Sábados" de Macalé e Wally e "Bonéca Semiótica", de Macalé, Rogério Duarte, Duda e Ricardo Chacal, no arranjo Perinho Albuquerque faz uma citação de "Insensatez" de Tom Jobim, caiu como uma luva, ficou perfeito!
A conclusão do disco se dá com uma vinheta em off de "Dois Corações", música que na primeira faixa é apenas declamada, cantada por Lygia Macalé que encerra a 'mini-canção' com uma risada bem gostosa. O disco acaba e você já tem vontade de ouví-lo novamente...
"...O beijo é fósforo aceso, na palha seca do amor
Porém, foi teu desprezo que me fez compositor..."
Para Baixar e Sair Sacundindo: Jards Macalé - 1974 - Aprender a Nadar
Para Saber Mais: Bio 1 - Bio 2 - MySpace Jards 1 - MySpace Jards 2
Postado Por Marcel Cruz
Outro elo entre tropicalistas e malditos. Torquato Neto, o poeta maldito.
Torquato foi uma das figuras chave no desenvolvimento da poética tropicalista, fez parte do seleto grupo desde o início, é dele a genialíssima letra de "Geléia Geral" musicada por Gil e de "Mamãe Coragem" musicada por Caetano, ambas para o álbum do movimento, no ano de 1968 só com Caetano e Gil tiveram bem umas 7 composições, a produção foi intensa. O álbum aqui presente se trata de uma coletânea póstuma lançada em 1985 pelo Centro de Cultura Alternativa Rio/Arte em parceria com a Secretaria de Cultura do Piauí. O volume teve a magra tiragem de apenas 2000 cópias, das quais uma se encontra em minhas mãos, rsrs.
Originalmente doze composições integram o álbum, é claro que não poderia me ater a apenas 12 faixas, por isso o arquivo que vocês terão acesso contém 7 faixas bônus. As datas das gravações vão de 1966 a 1973, infelizmente, ou felizmente, rsrs, nenhuma na voz de Torquato pela óbvia razão de Torquato não ser cantor.
Os intérpretes formam um time de primeira grandeza, temos Elis Regina em "Veleiro", Edu Lobo & Maria Bethânea em "Pra Dizer Adeus" e "Lua Nova", Nara Leão em "Vento De Maio" e "Deus Vos Salve Essa Casa Santa", Jards Macalé em "Let's Play That", Gal Costa em "Zabelê", "Mamãe, Coragem", "Três Da Madrugada", "Coisa Mais Linda Que Existe", "Minha Senhora" e "Nenhuma Dor", com Caetano Veloso temos "Ai de mim Copacabana" e com Gilberto Gil: "Louvação", "A Rua", "Marginália II", "Geléia Geral", "Todo Dia é Dia D" e "Domingou".
Torquato foi jornalista e multi artista, além de poeta e escritor atuou como protagonista do filme "Nosferato no Brasil" do cineasta Ivan Cardoso e dirigiu o filme "Terror Da Vermelha", isso pouco antes de partir pra outra. Nos links abaixo vocês terão mais detalhes.
Ah! E voltando ao disco, fiz a substituição de duas faixas que estavam no volume original, troquei "Louvação" que estava na interpretação de Elis e Jair Rodrigues pela de Gilberto Gil e "Pra Dizer Adeus" também com Elis troquei pela versão com Edu Lobo e Bethânea. E fim de papo!... Ta legal...
"Mamãe mamãe não chore, a vida é assim mesmo eu fui embora..."
Para Baixar e Sair Sacundindo: Torquato Neto - 1985 - Um Poeta Desfolha a Bandeira...
Para Saber Mais: Torquato Home Page - Fotos de Nosferato no Brasil - Biografia
Para Assistir e Sacundir: Torquato e o Cinema - Terror Da Vermelha - Trinta anos Sem Torquato - Nenhuma Dor (Com Gal)
Postado Por Marcel Cruz
I'm baaaaaaaaack!!!! Depois de um, literalmente, longo e tenebroso inverno, estou aqui novamente, ainda não sei ao certo como será minha frequência de postagem, mas enfim, o que não pode acontecer é parar de vez. Então vamos lá, conforme o prometido na postagem anterior seguiremos com os denominados malditos da MPB.
Não farei aqui um pente fino na maldição mpbística existente, apenas pontuarei alguns nomes que me fazem, ou fizeram, a cabeça por algum tempo. Resumindo: muita gente vai ficar de fora.
O segundo nome que trago e que é uma espécie de ponte entre pós-tropicalismo e "malditismo" é o carioca, pra lá de doido , Jorge Mautner.
A aproximação de Mautner com os tropicalistas se deu em Londres nos idos de 1970, onde Caetano e Gil estavam exilados. A partir de então as amizades se estreitam e surgem parcerias musicais, ou seja, Mautner é agregado ao Clã.
O primeiro elepê de Mautner, foi lançado apenas em 1972 em edição pirata pela própria Philips/Phonogram, leia abaixo o trecho retirado do site de Jorge:
"1972: Lança o LP Para Iluminar a Cidade e o compacto Planeta dos Macacos, pelo selo Pirata, da Phonogram. O disco é lançado por um preço mais baixo que o de mercado, e as lojas começam a boicotá-lo. Assim, o selo Pirata deixa de existir, e o disco é retirado de circulação."
De fato, na capa original tem o preço de quinze cruzeiros (CR$ 15,00) prensado no canto superior direito. Este selo "Pirata" teve a vida curta de apenas dois álbuns: o de Jorge e o de Caetano e Gil (Barra69), este último sem o preço na capa.
A mim Jorge chegou, e não poderia ser de outra forma, através dos tropicalistas, foi ouvindo a composição "Vampiro" que Caetano Veloso gravou em 1979 que meu interesse 'mautneriano' cresceu, fui atrás e pra minha sorte o primeiro álbum que encontro foi justamente esse: "Para Iluminar a Cidade", edição original por excelentes R$15 (quinze reais), só atualizou a cifra, rsrs. Na época adorei o álbum, estava realmente deslumbrado, achei o máximo as composições "Quero Ser Locomotiva" e "Sapo Cururu", "Super Mulher", "Olhar Bestial", enfim, das 9 composições contidas no volume, consegui gostar de todas. Hoje reouvindo o disco pra postar já não achei tão genial assim, o que achei foi enfadonho e pra falar a verdade chato. Não sei dizer se foi meu estado de espírito ou se foi a maturidade inevitavelmente adquirada 12 anos após a primeira audição do disco ou simplesmente mudança de gosto, sei lá, rsrsrs.
De qualquer forma, não me restringi apenas a esse disco, os dois seguintes lançados respectivamente em 1974 e 1976, me fizeram a cabeça de montão na época que conheci, teve também, "Bomba de Estrelas" e "Árvore da Vida", sim eu fui um Mautnermaniaco. Fui em shows e até peguei autógrafos! rsrsrs.
E digo mais, tem coisas genialíssimas, vale a pena conhecer, minha opinião pode ser momentânea, quem sabe ao ouvir novamente volte aquilo tudo que aconteceu na primeira vez, ou não, como diria Caetano, rsrs.
Bom, to passando a bola, vamos ver o que vocês acham, espero que gostem desse tanto quanto já gostei. Pretendo postar mais os dois álbuns citados acima (74/76). Vamos ver, rsrsrs. Por hora é isso... Vamo que vamo que o som não pode parar!!!
Para Baixar e Sair Sacundindo: Jorge Mautner - 1972 - Para Iluminar a Cidade
Para Saber Mais: Jorge Mautner Homepage
Para Assistir e Sair Sacundindo: Clip não oficial de "Vampiro"(Versão de Caetano Veloso) - O Vampiro (com Jorge Mautner)
Postado Por Marcel Cruz
Outro figurinha de extrema importância no âmbito tropicalista foi Jards Anet Da Silva, Jards Macalé ou apenas Macal, nome que Caetano invoca para solar em "Nine Out Of Ten" no LP Transa.
Até o episódio de "Gothan City" Macalé estava participando do movimento mais nos bastidores. A carreira fonográfica de Macal se dá apenas em 1970 com o lançamento de um compacto duplo que continha quatro faixas, esse compacto é bastante difícil de se conseguir em perfeito estado, na cópia que tenho tentei dar uma melhorada no som mas sinceramente ainda não fiquei satisfeito com o resultado, mas mesmo assim acrescentei essas faixas como material bônus do arquivo aqui presente.
Jards também tem um histórico de trilha sonora no cinema nacional, é dele as trilhas de "Macunaíma", do diretor Joaquim Pedro De Andrade, e de "Amuleto de Ogum", de Nelson Pereira Dos Santos. Neste, Jards também atua interpretando um músico cego que é o narrador da história.
Bom, a estréia de Jards em Long-Play solo se dá em 1972 e da melhor forma possível, Jards conta com ninguém menos que Tuti Moreno na Bateria e o genial Lanny Gordin, que junto com Macalé assume o Violão além de também ser o responsável pelo Baixo.
No repertório, composições escolhidas com bastante esmero. Não, infelizmente não temos nele a gravação de "Gothan City", aliás, pelo que se sabe essa composição nunca foi gravada por Jards, gostaria de saber o motivo. Mas enfim, o LP é composto por 9 faixas, no CD temos 11 pelo fato de que 2 vinhetas contidas entre as faixas estão separadas, ou seja, o resultado final acaba dando 11 faixas.
O álbum abre com a excelente "Farinha Do Desprezo" feita em parceria com Capinam, em seguida Jards canta quase que sem querer, como se fosse um lamento, o refrão de sua genial "Vapor Barato" feita em parceria com Waly Salomão e imortalizada por Gal Costa. A próxima é "Revendo Amigos", uma das que mais gosto, também feita em parceria com Waly. Recentemente essa música ganhou uma versão que ficou fantástica.
Mais duas e fechamos o Lado A, outra jóia ímpar também feita em parceria com Waly e imortalizada por Gal aparece agora na voz do compositor: "Mal Secreto", fenomenal!!! Acho essa composição ducaraaaaleo! Jards escolhe pra fechar a elegantíssima "78 Rotações"... grave um disco devagar... devagar quase parando um long play... Com as mãos frias mas com um coração queimando... . Parceria com Capinam. Excelente!
O Lado B abre com a melancólica "Movimento Dos Barcos", seguida pela não menos melancólica e excelente "Meu Amor Me Agarra e Geme e Treme e Chora e Mata", ambas feita em parceria com Capinam. O que entra em cena agora é o resultado da doida parceria entre Macalé e Torquato Neto: "Let's Play That", desafinando o coro dos contentes! rsrs.
Além de suas composições Macal escolheu duas composições 'alheias', uma do então novato Luiz Melodia, que entraria pro cenário fonográfico nacional no mesmo ano, "Farrapo Humano", e outra de Gilberto Gil chamada "A Morte". Fechando o álbum, temos outro hit em forma de vinheta, "Hotel Das Estrelas" parceria com Duda, gravada anteriormente por Gal em seu álbum 'LE-GAL'.
Como citei no começo do texto, acrescentei mais 4 faixas ao arquivo. Essas faixas são parte integrante do primeiro compacto lançado por Jards Macalé que tem como banda de apoio o grupo SOMA que entre outros tinha como integrantes Zé Rodrix e Naná Vasconcelos. As quatro composições são: "Soluços" de Jards, "O Crime" parceria com Capinam, "Só Morto(Burning Night)" - a mais fooooda! - e "Sem Essa"(regravada em 1977 no LP Contrastes), ambas em parceria com Duda.
Apesar de todo seu histórico e composições Macalé nunca se considerou tropicalista.
É isso aí, ele não, mas a gente considera! rsrsrs.
PS* Macalé é sim considerado, junto com Mautner, Itamar Assumpção e Luís Melodia, entre outros, como um dos "Malditos Da MPB". Já que é assim chegou a hora e a vez dos Malditos no Sacundin!!! O próximo será Jorge Mautner, esse sim maldito e tropicalista! rsrsrs.
"...E tudo o mais jogo num verso, intitulado mal secreto..."
Ta aí outro daqueles que surpreende do início ao fim, ecos de tropicalismo, samba-rock, funk e psicodelia explodindo em nossos ouvidos.
"Mudei De Idéia", álbum de estréia dos baianos Antônio Carlos & Jocafi, fez um estrondoso sucesso já de cara, o repertório do volume é composto por canções que se tornaram hits absolutos como "Você Abusou", talvez a composição que mais ganhou versões no mesmo ano, já cataloguei pelo menos 10 delas. Também se encontram no volume "Desacato" e "Mudei de Idéia", ambas, a exemplo de "Você Abusou", com inúmeras regravações. Paramos por aí? Sim e não.
Se quisermos levar em conta apenas os hits da dupla que povoou o ano de 1971, sim, pois além dos três citados acima temos ainda "Lúcia Esparadrapo", música composta especialmente para a personagem da atriz Dejenane Machado, na novela "O Cafona", a faixa fazia parte da trilha sonora da mesma e, até onde, sei não se encontra na discografia da dupla.
Se dependermos do conhecido pararíamos por aí, mas não, não podemos nos contentar com tão pouco, são as cerejas do bolo que mais me interessam, vamos até elas!
O álbum é composto por 12 faixas, tirando os três hits citados acima nos sobram ainda 9 faixas, é bastante raro encontrar a ficha técnica do disco, porém, recebi informações que afirmam a participação de ícones tropicalistas, como por exemplo Rogério Duprat, que segundo me disseram assina alguns arranjos, senão todos.
O Lado A é iniciado com a comentadíssima "Você Abusou", seguida de "Se Quiser Valer", funkeira ultra-violenta que conta com ninguém menos que Lanny Gordin pilotando as guitarras. A participação de Lanny permeia o disco todo. "Kabaluarê", faixa que segue, é mais uma que o gênio da "guita" faz brilhar, a composição é tão consistente que serviu, ou melhor, foi usada praticamente em sua totalidade como base de "Qual é?", música de Marcelo D2 lançada com estrondoso sucesso nos idos de 2003.
A próxima é um xote-baião com uma onda de samba-rock (eita porra!rsrsrs), "Conceição Da Praia", boa de se dançar. A psicodelia começa a dar as caras em "Hipnose", um funk genial que tem como intermezzo um baião encaixadinho de forma espetacular, a letra é uma viagem só. Fechando o Lado A temos a suingada faixa título, "Mudei De Idéia".
O Lado B sofreu uma leve alteração minha, dois dos temas contidos no volume original fiz o favor de substituir, porque meus caros... nada tinham a ver com as demais faixas. Uma delas parecia a dupla "Leandro & Leonardo" cantando, ninguém merece! A outra era uma toada meio xote, meio sei lá o que, quem tiver curiosidade procure por aí, rsrsrs, mas vou logo adiantando que não estão perdendo nada, porque a substituição, modestia a parte, foi de gala. Bom, então vamos lá.
A abertura do Lado B se dá com "Desacato", um samba com caráter de partido alto dado pela cuiquinha bem marcada e uma orquestração de cordas na medida exata. A próxima, "Quem Vem Lá", inicia com a guita de Lanny, que vem furando nossos ouvidos e logo recebe o acompanhamento da massa sonora de órgão, metais, batera e percussão, porrada desnorteadora, trilha de filme; o arranjo me lembra Chiquinho de Moraes, não duvido que seja dele.
Temos agora a primeira substituição, saiu "Nord West" e entrou a excelênte "Simbarerê", faixa contida originalmente no segundo disco deles, "...A Cada Segundo", álbum de 1972, dessa sim temos a informação exata do arranjador. Melhor impossível! Dom Salvador foi o responsável pela roupagem, concepção simplesmente genial, é só o que tenho a dizer. A faixa que segue é o excelente samba-rock "Morte Do Amor", música e letra fenomenais, Jorge Ben deve ter ficado orgulhoso pela nítida influência. Mais uma funkera psicodélica entra em cena, agora temos "Deus Nos Salve", faixa que ganhou um arranjo de metais muuuito, mas muito fuderoso, a letra não fica pra traz e acompanha a psicodelia vigente. A segunda substituição foi da faixa que fecharia o volume, saiu "Bonita" e entra o surpreendente funk "Xamego de Iná", essa música ganhou uma versão do Trio Mocotó com um solo de cuíca inacreditável, a que temos aqui foi retirada do terceiro álbum da dupla. Com ela concluimos o volume, sinceramente fiquei orgulhoso com as alterações, rsrsrsrs.
É claro que uma pérola dessas não pode deixar de ter material bônus incluído. Acrescentei a funkeadíssima "Lúcia Esparadrapo", na interpretação de Betinho e um vídeo que mostra Elis Regina e a dupla interpretando um pout-porri com as famosas "Lúcia Esparadrapo", "Você Abusou", "Mudei De Idéia" e "Desacato", ultramegathunder-fantástico!!! É isso aí...
"...Estou aqui em nome da tristeza, dando a certeza de que o amor morreu..."
Ah! Caso alguém tenha a ficha técnica do LP me passe se possível, desde já deixo meus agradecimentos. Valeu!
Para Baixar e Sair Sacundindo: Antonio Carlos & Jocafi - 1971 - Mudei De Idéia (Versão Sacundinbenblog)
Para Saber Mais: Biografia Antonio Carlos & Jocafi
Para Assistir e Sair Sacundindo: Elis Regina e Antonio Carlos & Jocafi - Xamego De Iná Com Trio Mocotó
Postado Por Marcel Cruz
Muito bem! 1971 é isso aí! rsrsrs. Quarto disco de carreira, retorno de uma turnê de sucesso pela França, um álbum gravado por lá (que, creio eles não sabiam, só chegaria nas mãos do público em 1999, quase 30 anos depois!). Mas nem tudo eram flores, o casal Rita /Arnaldo já não estavam lá muito bem.
Musicalmente o álbum tem tanta maturidade quanto os anteriores, temas consistentes, arranjos excelentes, ora próprios, ora com dedinhos de Duprat, com Arnolpho Lima (Liminha) e Ronaldo Paes Leme efetivados na banda de fato, o trio tornou-se oficialmente quinteto.
O repertório é genial! Onze composições dentre as quais, duas ("Top Top" e "Lady, Lady") também levam a assinatura de Liminha, Liminha, rsrsrs. O volume tem ainda uma versão em inglês feita por eles para "Baby", de Caetano Veloso. As demais são todas assinadas somente pelo trio.
O Lado A abre com a excelênte "Top Top", hit absoluto criado a partir de um jargão, marca registrada de Fradinho, personagem criado pelo cartunista Henfil e bastante famoso na época. Em seguida temos o tema "Benvinda", balada ultra-romântica nos moldes das criações de 'Tim Maia', a referência é tão latente na composição que a contra-capa do Lp traz uma curiosa observação/aviso: " *Qualquer semelhança com Tim Maia é mera coincidência", o arranjo de cordas feito por Duprat intensifica ainda mais o romantismo da canção.
"Tecnicolor", tema que vem logo depois, tem a letra em inglês que, entre outras coisas, fala de uma viagem num trem multicolorido, a melodia é genial. A próxima é a 'chicana' "El Justiciero", o clima mariachi invade nossos ouvidos e é fácil visualizar aqueles faroestes que se passam no México, a tiração de onda no início com o 'Once upon a time...' é excelente!
O álbum como um todo é cheio de baladas e a que segue é uma das melhores "It's Very Nice Pra Xuxu", só pelo nome já vale ser ouvida, sem contar que a interpretação que Arnaldo Baptista faz é ímpar. Seguindo o tom de irreverência vem o desabafo 'lava alma' de "Portugal De Navio", nome que foneticamente guarda bastante semelhança com nosso corriqueiro '...Vá pá Púuuu...rtugal de Navio...' ops! Não posso baixar o nível aqui, rsrsrs. Com essa concluímos o Lado A do bolachão.
O Lado B inicia com outra balada, "Virgínia", relacionamento ou o fim de um é a temática dessa canção, poesia pura. Seguindo temos os dois temas mais 'rock'n'roll' do álbum: "Jardim Elétrico", faixa psicodélica que dá nome ao volume e a não menos psicodélica "Saravá". Na verdade, entre elas temos, a meu ver, uma das mais geniais do grupo: "Lady, Lady", talvez a composição mais Beatles que os Mutantes já fizeram, música e letra fantásticas. Fechando o Lado B, e o álbum como um todo, temos a já citada "Baby" de Caetano Veloso que recebeu letra em inglês do trio, ficou perfeita!
A arte gráfica do álbum ficou a cargo de Alan Voss, gênio dos quadrinhos e das ilustrações. O traço inconfundível de Alan Voss e a psicodelia do enredo da capa dão o toque final pro disco transformando-o num conjunto conceitual perfeito, aparência e conteúdo caminhando no mesmo patamar. Acho que é isso...
"...Tudo lembra nossas vidas, Nossas noites de ilusão, Suas roupas estão vazias, Lady ainda estou aqui..."
Para Baixar e Sair Sacundindo: Os Mutantes - 1971 - Jardim Elétrico
Postado Por Marcel Cruz
Em 1971 "Os Novos Bahianos", começam a aparecer pra valer, desde a gravação do álbum de estréia eles acabaram fazendo parte de vários "eventos" como festivais, participações em discos e shows de outros artistas. Uma das grandes contribuições para carreira deles foi a gravação de Gal para "Dê Um Rolê", composição incluida no repertório do show "- FA - TAL -", que mais tarde foi transformado em disco. A composição feita por Moraes e Galvão, mentores do grupo, teve gravação registrada pelos Novos Bahianos no mesmo período e foi lançada apenas em compacto, compacto que até certo tempo era extremamente obscuro e dificílimo de se conseguir. Algumas vezes tive a oportunidade de ter em mãos essa "pílula de vinil", porém, não passava disso pois em todos os casos o preço era exorbitante.
O compacto saiu pela Philips e contém 4 faixas. Além de "Dê Um Rolê", temos também: "Você me Dá Um Disco?", pareceria de Moraes, Galvão e Pepeu Gomes no Lado A, e no Lado B mais duas também assinadas por Moraes e Galvão: "Caminho De Pedro" e a excelente "Risque". O pequeno volume ainda conta com a participação do grupo, recém-formado, "A Côr Do Som" do qual faziam parte os "The Leif's", Pepeu Gomes (Guitarra) e Jorginho Gomes (Bateria) mais Dadi (Baixo), Baixinho e Bolacha (Percussão). Mais tarde o "A Côr Do Som" se oficializaria de fato com outra formação, mas isso parece-me que só em 1977.
A arte gráfica é um caso a parte. A relação da imagem de Jesus Cristo com o juízo final é inevitável, mas alto lá, o trocadilho não poderia ser melhor, pois o nome do disco não é juízo final e sim "Final Do Juízo", conotação de uma familiar loucura que aflorava naquele começo de década. A letra ajuda a direcionar a atenção apocaliptica com um "...Olhe, entre no fim do Final Do Juízo, de vida inteira, de inteira vida, mas pelo menos risque, de seu caderno-céu, de seu caderno-inferno...", muuuuuito bom!!! Acho genial e ao mesmo tempo pra lá de estranha, rsrsrs. Bom, loucuras e viagens a parte é um "disquinho", indispensável.
"...Não se assuste pessoa! Se eu lhe disser que a vida é boa..."
Para Baixar e Sair Sacundindo: Os Novos Bahianos - 1971 - Novos Bahianos + Baby Consuelo No Final Do Juízo
De fato um álbum -FA-TAL-, Gal Costa na sua melhor forma. O disco é fruto da turnê do LE-GAL, álbum lançado em 1970. O Lp saiu em versão dupla e contou com a arte gráfica de Luciano e Oscar Ramos que fizeram bonito.
O show teve como diretor musical, arranjador e instrumentista o guitarrista Lanny Gordin. Quem completou o time que apóia Gal foram: Novelli no baixo, Jorginho Gomes na bateria e, na tumbadora, Baixinho. Além desses, em 7 das 19 faixas, temos a participação de Pepeu Gomes também na guitarra.
O repertório do álbum é composto por 19 faixas, 8 regravações e 11 "inéditas" na voz de Gal. Aqui, Gal assume o violão e se acompanha nas 9 primeiras faixas. Apenas voz e violão, na edição em vinil é o Disco 1 inteiro. Durante o curso das faixas Gal comete alguns errinhos que dão um charme todo especial pro disco, como por exemplo na segunda vez que ela canta "Fruta Gogóia", tema do folclore baiano, o violão bate no microfone, ela ri e larga um: "- Acontece...", o público não consegue deixar de rir junto.
A banda entra na metade de "Vapor Barato", nona faixa, e segue até o fim do álbum, no vinil é metade da última faixa do Disco 1 e Disco 2 inteiro. Gal larga o violão e sai da postura Bossa Nova para incorporar a Gal "roquenrou". O repertório segue na mesma direção.
Entre as 10 faixas seguintes temos as composições: "Dê Um Rolê", dos novatos Moraes Moreira e Galvão e "Pérola Negra", música de um compositor que começava a despontar no meio e que, inevitavelmente, faria sucesso: Luiz Melodia. O disco continua num crescendo fenomenal com músicas integrantes do álbum anterior (LE-GAL), que ao vivo ganham ainda mais visceralidade. Gal fecha o volume com "Chuva, Suor e Cerveja", sucesso de Caetano lançado no mesmo período e "Luz Do Sol", composição de Carlos Pinto e Waly Salomão, uma das mais legais do álbum. Acho que é isso...
"...E tudo mais jogo num verso, intitulado Mal Secreto..."
Para Baixar e Sair Sacundindo: Gal Costa - 1971 - FA - TAL - Gal a Todo Vapor (Show Gravado Ao Vivo)
Para Ver e Sair Sacundindo: Mal Secreto - Gal 1970/ 1971
Postado Por Marcel Cruz
Eu gostaria muito de ter postado o álbum do Duprat, "Brasil Ano 2000", trilha do filme homônimo, lançado em 1969/1970, mas não o tenho e tampouco conheço quem o tenha. Sendo assim fechamos o ano de 1970 e mais um ano se inicia, 1971!
Como no ano de 1970 Caetano não teve nenhum lançamento fonográfico, escolhi ele pra fazer as honras da casa e para, declaradamente, começarmos este "71", ano que já é considerado como pós-tropicalista. Digo declaradamente porque o Gil do mesmo ano já esta por aqui faz um bom tempo, da mesma forma que Erasmo Carlos com seu "Carlos... Erasmo", albúm ultra-tropicalista. Mas enfim, isso não isenta Caetano de ser o início do 71 tropicalista, rsrsrs.
Em 1971 o baiano não estava lá muito alegre, pelo contrário, a melancolia se apossou de Caetano e fez morada. A saudade e a sensação de estar como peixe fora d'água são alguns dos reflexos facilmente identificáveis no seu álbum de estréia em solo estangeiro. Lançado pelo selo londrino "FAMOUS", da Paramount Records, o álbum contém 7 faixas, 5 assinadas apenas por Caetano, 1 em parceria com Gilberto Gil ("In The Hot Sun Of a Christmas Day", talvez a mais foda do disco, tem um climão, uma melodia e um arranjo de cordas e flautas geniais), e a última é uma releitura do clássico "Asa Branca", composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, a versão apresentada dura mais de 7 minutos e é pra lá de deprê.
As 5 faixas que Caetano assina sozinho são: "A Little More Blue", faixa que abre o disco e que foi a primeira composição de Caetano em solo inglês, em seguida temos a também clássica "London, London", gravada um ano antes por Gal Costa no seu álbum "LE-GAL", e regravada nos anos 80 pelo RPM que criou uma versão horrível e absurdamente brega pra ela, vamos e venhamos, ninguém merece o Paulo Ricardo, rsrsrs. Continuando a sequência o que nos chega é "Maria Bethânea", composição feita em homenagem a sua irmã, a linha de baixo que inicia a faixa e o refrão são excelentes. A próxima faixa, Caetano dedicou a artista plástica brasileira Lygia Clark, "If You Hold a Stone", nela Caetano faz um 'mix' com "Marinheiro Só", intercalando ambas as letras, o resultado é bem bacana.
Fechando o repertório do disco temos "Shoot Me Dead", composição que teve como base para a letras alguns ditos populares ou provérbios, a melodia e o arranjo são beeem legais e de tão pra cima chega a destoar do conjunto. Muuuuuito boa! rsrsrs. Acho que é isso!
"...But today, but today, but today, I don't know why, I feel a little more blue than then..."
Para Baixar e Sair Sacundindo: Caetano Veloso - 1971 - Caetano Veloso (Famous)
Para Saber Mais: Sobre o álbum
Postado Por Marcel Cruz
Em entre 1969 e 1970, logo após ter vencido o IV Festival de Música Popular Brasileira, Tom Zé criou uma escola de música em São Paulo, a escola se chamava "Sofisti-Balacobaco (Muito Som e Pouco Papo)", o nome é no mínimo engraçado, uma pena ser essa a única informação consistente que se encontra a respeito dela. Mas justificando o meu grifo pra escola, o álbum aqui presente, segundo elepê de Tom Zé, tem na contra-capa o seguinte texto:
"As melhores idéias dêste disco, devem ser divididas com os meus alunos de composição da SOFISTI-BALACOBACO (muito som e pouco papo) e com Augusto de Campos. Foi, por exemplo, um exercício proposto a Ricardo Silva e Ciumara Catto (Limeira-SP) o ponto de partida que nos levou à "Guindaste a Rigor". Elio Manoel e Aderson Benvindo (parceiro em : Lá vem a onda") que trabalharam quase com febre; Beto Matarazzo e Durval do "SESC", que têm um senso crítico muito agudo; João Araújo, Lais Marques e Valdez, parceiros em "Distância"e "Jimmy Renda-se"; todos ajudaram muito.
Aproveito a ocasião para informar que a Prefeitura de São Paulo não me pagou até agora o prêmio do 1º. lugar (São Paulo, meu Amor) do Festival da Record de 1968 e até começou a dizer que não assumiu esta obrigação. TOM ZÉ ." Ou seja, o volume aqui exposto é fruto de trabalhos e idéias surgidas na, pelo visto, efêmera escola. A outra informação que temos na contra-capa e que soa engraçada é a denuncia do calote que até então Tom Zé levava da prefeitura de São Paulo. Não tenho a informação de que o prêmio tenha sido pago, quase certo que não, rsrsrs. Mas enfim, vamos ao conteúdo musical contido no álbum. Informação indispensável é a presença de Chiquinho de Moraes entre o trio de arranjadores que se completa com o argentino Héctor Lagna Fietta, responsável por algumas trilhas do Mazzaropi e da novela "Simplesmente Maria", e Capacete, este último, se for o mesmo, é o baixista que gravou os àlbuns de 71 e 72 de Tim Maia. A faixa que abre o disco é "Lá Vem a Onda", na letra uma espécie de estudo de opostos perfeitos, bem singela e com um refrão que leva o ritmo de um trava língua. Em "Guindaste à Rigor", faixa que vem em seguida, Tom cria um orquestra bastante surreal e idealiza uma canção tão surreal quanto à orquestra que a executará; o título é referência ao regente, rsrsrs. "Distância", composição feita em parceria com Laís Marques e João Araújo, inicia com um melancólico fagote (ou seria Oboé?), que em seguida dá a vez para o naipe de metais, bateria e uma guitarra que me lembra a trilha de Enio Morricone para "Três Homens em Conflito", no refrão Chiquinho de Morais optou por amenizar a tristeza e dá uma alegrada nos metais, genial! A quarta faixa do Lado A é "Dulcinéia Popular Brasileira", um xote com roupagem sinfônica e uma letra bem enigmática. Em seguida temos a versão de Tom Zé para "Qualquer Bobagem", música composta em parceria com os Mutantes e gravada pelo trio um ano antes, Tom a transforma num Iê-Iê-Iê deprê. Fechando o Lado A temos "O Riso e a Faca", o arranjo de cordas em contraponto ao ostinato do violão ficou bonito pacas, mas cuidado pra não cortar os pulsos no final da canção, rsrsrs. O Lado B do elepê começa com pancadaria "Jimmy Renda-se", excelente! O arranjo de metais é genial, Chiquinho pegou o espírito da composição e deu um toque todo especial, trilha de filme! Depois do "roquenrol" outra com caráter mais triste mas com ares de infância e elementos de brincadeiras de roda, o nome já entrega, "Me Dá, Me Dê, Me Diz". Ouvindo com calma e pensando no conjunto de canções chego a conclusão que esse álbum não é dos mais alegres, rsrsrs. A faixa seguinte é "Passageiro", bem bonita também, mais uma vez cuidado com os pulsos. Pra quebrar um pouco o ar de melancolia temos a crítica e irônica "Escolinha De Robô", muito booooa! Letra e melodia espetaculares, a utilização do órgão nas estrofes ficou excelente. A seguinte, "Jeitinho Dela", fez bastante sucesso na época e apesar de o crédito ser dado apenas para Baby Consuelo, também participam da faixa Moraes Moreira, Paulinho Boca De Cantor e Galvão, ou seja, Os Novos Bahianos (que acabavam de gravar seu álbum de estréia), música, letra e arranjo perfeitos. Fecha o álbum outra excelente, mais uma crítica extremamente bem humorada e uma espécie de tratado a respeito da gravata, o nome? A sim, "A Gravata", rsrs. Como bônus acrescentei ao arquivo 5 faixas lançadas apenas em compactos de 1969, são elas: a fantástica "Bola Pra Frente", em duas versões, uma em estúdio e outra ao vivo. Na época foram lançados dois compactos, ambos com as mesmas músicas só que um em versão ao vivo e outro em estúdio, tanto o de estúdio quanto o ao vivo carregava do outro lado "Jeitinho Dela", é a versão ao vivo que está aqui. As outras duas são: "Feitiço", gravada no mesmo ano pelos Brazões e "Você Gosta", ambas no mesmo compacto. É isso aí!!! "... Faça suas orações uma vez por dia, depois mande a consciência junto com os lençóis pra lavanderia..."
Para Baixar e Sair Sacundindo: Tom Zé - 1970 - Tom Zé
Para Assistir e Sacundir: A Gravata - Jimmi Renda-se (Não é a versão original mas tá valendo)
Postado Por Marcel Cruz
Em 1970 Os Mutantes lançam seu terceiro Lp. Mais inventivos do que nunca, chegaram arrebentando naquele início de década. O álbum foi "batizado" com o nome de: "A divina Comédia ou Ando Meio Desligado", uma citação à obra máxima do poeta, escritor e político italiano Dante Alighieri (1265-1321).
A capa do álbum é foto de uma encenação que Rita, Arnaldo e Sérgio fizeram baseada numa gravura de um dos mais importantes ilustradores e gravuristas do mundo, o Francês Gustave Doré, contida na edição de 1861 da Divina Comédia, confeccionada às custas do próprio Doré. Os arranjos foram assinados por Rogério Duprat (pra variar um pouco, rsrsrs) e Os Mutantes.
O disco abre com a faixa título "Ando Meio Desligado", um 'tcha-tcha-tcha' envenenado pelas guitarras de Serginho Dias e órgão/piano e sintetizadores de Arnaldo Baptista, essa composição foi inscrita no IV FIC e ficou, rsrs, em décimo lugar. Seguindo temos "Quem Tem Medo De Brincar De Amor", é aí que começa o deboche escrachado, os efeitos sonoros utilizados e o sotaque gringo de Rita dão um ar de total irreverência. A terceira faixa do Lp é a música mais foda contida nesse volume e digo mais, é uma das mais genias já feitas em terra-brasilis, na minha opinião somente ela já vale o álbum todo: "Ave, Lúcifer". O arranjo sinfônico de Duprat e as engenhocas criadas por Cláudio César Dias Baptista (Citado no Texto do álbum de 1969), encaixam-se de maneira surpreendente. De cara o timbre da guitarra já é fantástico, e, aos 47 segundos após o início, a letra se refere a serpente do pecado original, o efeito sonoro criado pra tal momento me faz de fato visualizar o movimento de uma serpente, acho incrível a solução que conseguiram pra isso, muito, muito genial! Essa faixa é o elo de coerência mais forte entre arte gráfica e conteúdo musical.
O Lado A é ainda composto por mais duas composições: "Desculpe, Baby", uma espécie de bolero'n'roll meio gospel com pitadas de deboche 'mutântico' e a progressiva e 'existencialista', rsrs, "Meu Refrigerador Não Funciona", que começa num tom bastante sombrio e lá pelos 4 min e 20 seg, entra numa onda meio jazzística e baixa uma alma bebop em Arnaldo que é um sarro, mas creio que pra quem estiver se iniciando em Mutantes vai ter dificuldades pra chegar até o fim da faixa, acho que você acaba mudando antes, rsrs.
O Lado B abre com a divertida "Hey Boy", um Iê-Iê-Iê que caberia no repertório de Celly Campelo numa boa. Seguindo temos duas releituras dos Mutantes. A primeira é uma composição de Roberto e Erasmo Carlos, "Preciso Urgentemente Encontrar Um Amigo", a versão ficou excelente, Erasmo só iria regravá-la em 1972, a segunda, é uma composição clássica do cancioneiro popular, a autoria é assinada por Silvio Caldas e Orestes Barbosa criador de um dos versos considerados como sendo dos mais belos da música brasileira: "...Tu pisavas os astros, distraída...". Mutantes e Duprat foram simplesmente fenomenais no arranjo, fizeram da música uma verdadeira Rádio-Novela, a sonoplastia usada torna essa versão uma obra-prima e com certeza é a versão mais ousada já feita pra tal canção, e creio, imbatível. A que vem em seguida é "Jogo De Calçada", totalmente Hendrix, e o solo de Sergio Dias no finalzinho é ducaraaaaleo!
O álbum ganha um tom solene com "Haleluia", tema que incia nos moldes dos contra-pontos renascentistas, mas que logo em seguida se transforma e não difere em nada de um coral gospel do Harlen seguido de um rock'n'rollzinho pra acabar, porque, afinal de contas, ninguém é de ferro, né? rsrs. Fechando o álbum temos "Oh! Mulher Infiel!", uma composição instrumental que tem uma narrativa bem legal pois começa pesadaça com uma guita rasgadona e órgão, isso até uns 2 min e 20 seg, depois disso cai num climão bem brega com um pianão tipo Richard Claydman e com Sérgio Dias ou Arnaldo, não sei ao certo, cantando bem ao fundo, como se fosse uma espécie de conformismo adquirido com algumas doses de Whisky. O clima dura um pouco mais de um minuto pra cair novamente na mesma furia raivosa com que se iniciou fechando assim o ciclo e o disco.
Como material Bônus acrescentei um curta metragem de 7 minutos, feito por Ântonio Carlos Fontoura, bem legal e que tem como trilha sonora praticamente todas as faixas desse álbum aqui. Acho que é isso, fui!
"...Ando meio desligado, eu nem sinto os meus pés no chão..." (mó papo de chapado essa letra, rsrsrs)
Postado Por Marcel Cruz
Em 1970 Caetano Veloso não lançou nenhum álbum, o da Gal já foi postado anteriormente e o de outro grupo, que acho que foi o que melhor leitura fez do tropicalismo, Os Novos Bahianos, também já foi postado. Do time titular restaram ainda: Gil, Os Mutantes, Tom Zé e Duprat.
Comecemos com Gil.
Gil tinha acabado de chegar em Londres e recebeu a encomenda do cineasta (o mais foda do Brasil, na minha opinião) Rogério Sganzerla, diretor do genial e aclamado "O Bandido Da Luz Vermelha", para compor a trilha de seu novo filme. O filme se chamaria "Copacabana Mon Amour" e seria o marco de um novo gênero: a Chanchada Psicodélica. No elenco: Helena Ignez, Paulo Vilaça, Lilian Lemmertz, Guará e, entre outros, Otoniel Serra.
As gravações da trilha aconteceram em Abril daquele ano, foi feita uma única cópia desse material, e essa cópia foi enviada para Sganzerla montar o filme. Essa única cópia simplesmente sumiu e só foi encontrada 28 anos depois. Somente em 1998 e depois de muita procura, os tapes foram localizados nas mãos de um colecionador inglês por Marcelo Fróes, idealizador de uma caixa excelente que cobre a discograia de Gil na fase Philips (1967 até 1974 e com material extra até 77), acho que em 1976/77 Gil migra para a Warner.
O álbum é composto por 6 faixas, das quais duas são takes distintos de uma mesma canção, "Diga a Ela" (1ª e 2ª Versão). Segundo o que descreve o texto do encarte a concepção da trilha ocorreu da seguinte maneira:
"... Gravando voz e violão em dois canais, Gil depois gravou voz e violão novamente (para o efeito de dobra, graças ao qual ouvimos duas vozes e dois violões do artista, como se ele cantasse consigo mesmo). Por fim, Gil adicionou percussão e convidou o flautista amigo David Linger para dar um toque final. Péricles Cavalcanti também estava presente. O resultado ficou ótimo e duas fitas master estereofônicas foram montadas no estúdio londrino IBC em 23 de Abril de 1970..."
O álbum de uma forma geral é bem livre, dá-se a impressão de que cada canção saiu na hora, que tudo foi um grande improviso com momentos memoráveis de fluxo musical (o que pode ter realmente acontecido). Pra mim esse disco tem a mesma atmosfera de "Ogum Xangô", álbum gravado 5 anos depois com Jorge Ben.
Além das duas versões de "Diga a Ela", temos, "Mr. Sganzerla", que tem uma suinguera fenomenal, parece que baixa o santo em Gil. No que diz respeito as letras... bom, não creio que caiba aqui juízo de valor, são todas tão doidas quanto o filme, pra quem assistiu sabe o que falo, rsrsrs. Depois temos "Blind Faith" e "Yeh Yeh Yah Yah", esta última na mesma linha de "Diga a Ela".
A última tem um nome que adoro: "Tomorrow Vai Ser Bacana", vejo ela, ela e "Blind Faith" na verdade, como uma prévia do álbum que Gil lançaria no ano seguinte pelo selo londrino FAMOUS (álbum absurdamente genial, que foi uma das primeiras postagens do Sacundin: aqui). É totalmente a mesma "vibe", muito boa por sinal. Não acho esse álbum o mais genial e tampouco mudou minha vida como outros do Gil. Pra falar a verdade dependendo do dia e do estado acho meio chato, beirando o sacal, porém, no filme a trilha funciona muuuuito bem em todos os momentos que aparece. Quando ouvi pela primeira vez, há mais ou menos 7 anos, lembro que gostei mais, até porque tava todo empolgado com a caixa do Gil. Mas ainda assim vale a pena ouví-lo pelo menos uma vez na vida e, se gostar, outras mais, quantas quiser.
Ah! Com relação a capa tivemos que fazer outra, porque a original foi feita com um descaso tão grande que é inacreditável, dá até a impressão de que foi gerada por computador. Por mais que o disco não seja o mais foda do mundo não merecia uma capa daquela, rsrsrs. Espero que vocês tenham gostado da que fizemos.
É isso aí e...
"...Tomorrow vai ser bacana, vai ser bacana, bacana, bacana, bacana..." rsrs